Descobrir um câncer de próstata é um dos momentos mais difíceis na vida de um homem. Imediatamente, a cabeça é bombardeada por dúvidas cruciais: “Vou conseguir me livrar da doença?” e “Quais serão as sequelas no meu dia a dia?”.
Até pouco tempo atrás, as principais opções de tratamento curativo envolviam métodos radicais – como a remoção completa da glândula (prostatectomia) ou sessões de radioterapia total.
Embora altamente eficazes, essas abordagens frequentemente trazem riscos consideráveis de efeitos colaterais temidos, como a disfunção erétil e a incontinência urinária.
No entanto, a medicina urológica deu um passo histórico no Brasil. O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução CFM nº 2.457/2026, que regulamenta a indicação, a execução e o acompanhamento de duas técnicas de Terapia Focal: o HIFU (Ultrassom Focalizado de Alta Intensidade) e a Crioablação (Crioterapia).
Essa regulamentação retira o caráter puramente experimental desses procedimentos no país, oferecendo uma alternativa precisa e preservadora para casos selecionados. Conforme explica o relator da nova norma do CFM, o conselheiro federal e urologista Dr. José Elêrton Secioso de Aboim, o objetivo principal é aliar eficácia oncológica à qualidade de vida:
“É uma técnica menos invasiva, capaz de controlar ou até curar o câncer, com menos impactos negativos na qualidade de vida, especialmente em relação às funções sexual e urinária. O propósito é oferecer um tratamento oncológico eficaz, preservando as estruturas adjacentes à próstata.”
O que é a Terapia Focal e como ela destrói o câncer?
Para entender o conceito da Terapia Focal, pense em uma fruta com uma pequena mancha estragada. Em vez de descartar a fruta inteira, remove-se apenas a parte afetada, mantendo o restante intacto e saudável.
Na abordagem tradicional do câncer de próstata, trata-se o órgão como um todo. Já na Terapia Focal, o objetivo é destruir exclusivamente a área exata onde o tumor está localizado, poupando o tecido prostático sadio ao redor e blindando estruturas vitais vizinhas – como os feixes de nervos responsáveis pela ereção e os músculos que controlam a urina.
A destruição física do tumor é realizada por meio de ablação térmica, utilizando tecnologias guiadas por exames de imagem de alta resolução em tempo real. A Resolução do CFM autoriza duas modalidades principais no Brasil:
1. Destruição pelo Calor: Como funciona o HIFU
O HIFU utiliza ondas de ultrassom altamente concentradas para eliminar o tumor.
- A física do tratamento: Semelhante ao efeito de uma lupa que concentra os raios de sol em um único ponto para gerar calor, o HIFU converge ondas sonoras em um alvo milimétrico.
- O efeito biológico: A energia concentrada eleva rapidamente a temperatura na área tumoral para uma faixa entre 85°C e 95°C em poucos segundos. Esse calor extremo provoca a morte imediata das células cancerígenas por necrose de coagulação, sem afetar os tecidos sadios adjacentes.
2. Destruição pelo Gelo: Como funciona a Crioablação
A Crioablação faz o caminho inverso, utilizando o congelamento severo para aniquilar as células doentes.
- A física do tratamento: Agulhas ultrafinas são inseridas através da pele até o interior do tumor, com posicionamento monitorado por fusão de imagens.
- O efeito biológico: Um gás criogênico circula por essas agulhas, reduzindo drasticamente a temperatura local a níveis inferiores a -40°C (40 graus Celsius negativos).
O resfriamento extremo forma microcristais de gelo dentro e fora das células tumorais. Ao descongelar, essas membranas celulares se rompem fisicamente, eliminando o tecido doente.
Os Benefícios: Preservação da ereção e da continência urinária
O grande trunfo desse tratamento localizado é a drástica redução de danos às estruturas nobres que circundam a próstata, como os feixes neurovasculares (essenciais para a ereção) e o esfíncter urinário (responsável por reter a urina).
Enquanto as abordagens cirúrgicas tradicionais podem causar traumas ou exigir a remoção dessas estruturas adjacentes, a Terapia Focal restringe a energia térmica ao volume tumoral. Estudos clínicos indicam que:
- Controle Urinário: Aproximadamente 96% dos pacientes mantêm a continência urinária perfeita após o procedimento.
- Função Erétil: As taxas de preservação da potência sexual variam entre 74% e 90%.
- Efeitos Adversos Reduzidos: Os índices de complicações urinárias ou sexuais de longo prazo giram em torno de apenas 5%, significativamente menores do que nos tratamentos convencionais.
- Recuperação Rápida: Por ser um procedimento minimamente invasivo, a intervenção exige menor tempo de internação, sendo frequente a previsão de alta hospitalar no mesmo dia ou em até 24 horas.
Critérios de Indicação: Quem pode realizar o tratamento?
O Conselho Federal de Medicina estabeleceu regras técnicas e éticas muito claras na Resolução nº 2.457/2026. A Terapia Focal não é indicada para todos os pacientes e exige critérios estritos de elegibilidade.
Casos Autorizados:
- Risco Intermediário Favorável: Tumores localizados e que apresentem comportamento clínico de agressividade moderada.
- Doença Unifocal e Unilateral: O câncer deve estar restrito a uma única lesão, localizada em apenas um lado da próstata.
- Concordância nos Exames: Não pode haver divergência de lateralidade entre os exames de imagem (como a Ressonância Magnética Multiparamétrica) e o resultado da biópsia (anatomopatológico).
- Tratamento de Resgate: Pacientes que já realizaram radioterapia externa ou braquiterapia no passado e apresentaram retorno localizado do tumor.
- Casos Excepcionais de Baixo Risco: Indicado excepcionalmente quando houver contraindicações médicas ou recusa estruturada do paciente à estratégia de Vigilância Ativa (que consiste apenas em acompanhar o tumor sem intervir de imediato).
Casos Proibidos (Contraindicações):
A norma do CFM proíbe terminantemente a realização dos procedimentos em pacientes com tumores de:
- Risco intermediário desfavorável;
- Alto risco ou muito alto risco;
- Lesões multifocais (espalhadas pela próstata) ou bilaterais;
- Doença metastática (disseminada para outros órgãos).
O Compromisso pós-tratamento: Acompanhamento rigoroso é obrigatório
A escolha pela Terapia Focal exige responsabilidade e um pacto de longo prazo entre o médico e o paciente. Como o restante da próstata saudável permanece intacto no organismo, ela continua sob risco de desenvolver novas lesões tumorais ao longo dos anos.
Por esse motivo, a Resolução CFM nº 2.457/2026 exige um protocolo de seguimento clínico extremamente rigoroso que não pode ser negligenciado:
- Exames de PSA: Dosagem periódica do antígeno prostático específico no sangue a cada 3 meses no primeiro ano e, posteriormente, a cada 6 meses nos dois anos seguintes (passando a ser anual após esse período).
- Biópsia de Controle: Realização obrigatória de uma nova biópsia prostática randômica e sistemática entre 6 e 12 meses após a intervenção para comprovar laboratorialmente a eficácia imediata do tratamento.
- Ressonância Magnética: Monitoramento anual por imagem multiparamétrica da próstata para rastrear precocemente qualquer sinal de progressão ou surgimento de novos focos.
Se o paciente não apresentar perfil de adesão a esse monitoramento preventivo contínuo, a Terapia Focal é contraindicada.
O Impacto da regulamentação no cenário da saúde
A aprovação do CFM muda o patamar da Terapia Focal no Brasil em três aspectos essenciais:
- Segurança Ética e Técnica: Os urologistas brasileiros agora possuem um manual técnico consolidado para indicar e realizar o HIFU e a Crioablação com total amparo legal.
- Acesso e Cobertura: Com o fim do status de “procedimento experimental”, abre-se um precedente jurídico robusto para que pacientes elegíveis solicitem e exijam o custeio dos procedimentos por parte dos planos de saúde e operadoras de saúde privadas.
- Outras técnicas seguem sob análise: Vale destacar que a resolução manteve outras modalidades de terapia focal (como a terapia fotodinâmica, eletroporação irreversível, ablação a laser focal e ablação transuretral da próstata com ultrassom – TULSA) restritas estritamente ao ambiente de pesquisa clínica e protocolos experimentais regulados pelo sistema CEP/Conep.
O diagnóstico precoce continua sendo o pilar fundamental. Quanto mais cedo o tumor for identificado por meio de exames de rotina (Toque Retal e PSA), maiores são as chances de o paciente se enquadrar nos critérios estritos para um tratamento focado, seguro e que preserve integralmente sua qualidade de vida.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. A Terapia Focal realmente cura o câncer de próstata?
Sim. Para pacientes bem selecionados (com tumor de risco intermediário favorável, unifocal e unilateral), o controle local do câncer obtido pelas técnicas de ablação térmica é altamente resolutivo e comparável aos resultados dos métodos convencionais, com a vantagem de produzir significativamente menos efeitos colaterais.
2. Por que preciso repetir a biópsia de 6 a 12 meses após o tratamento?
A biópsia pós-procedimento é uma exigência da Resolução CFM nº 2.457/2026. Ela serve para confirmar se a energia térmica (calor do HIFU ou congelamento da crioablação) de fato destruiu todas as células tumorais no local tratado e para verificar se não há atividade de doença ativa na próstata residual.
3. O que acontece se o tumor voltar ou se surgir um novo foco no futuro?
Uma das principais vantagens da Terapia Focal é que ela “não queima pontes”. Por preservar a anatomia e o tecido sadio da próstata, caso o tumor reapareça ou surja em outra área, o procedimento pode ser repetido ou o paciente pode ser submetido com segurança aos tratamentos tradicionais (cirurgia robótica ou radioterapia), sem que a primeira intervenção inviabilize essas opções.
4. Os planos de saúde e o SUS cobrem o HIFU e a Crioablação?
Anteriormente, as operadoras de saúde recusavam a cobertura alegando que as técnicas eram “experimentais”. Com a nova regulamentação oficial do CFM de 2026, os pacientes que se enquadram rigorosamente nos critérios médicos estabelecidos na resolução ganham forte fundamentação jurídica para requerer a cobertura obrigatória na saúde suplementar. No SUS, a incorporação depende de avaliações econômicas e governamentais específicas, o que costuma demandar mais tempo.
5. Como sei se meu caso é elegível para a Terapia Focal?
Você deve passar por uma avaliação urológica detalhada. Os critérios básicos envolvem ter um tumor de risco intermediário favorável localizado em apenas um lado da próstata (unilateral) e detectado como único foco (unifocal), sem divergência de informações entre os resultados da biópsia inicial e os exames de imagem por ressonância magnética.
Fontes Oficiais
- Conselho Federal de Medicina (CFM): “CFM aprova novo tratamento para o câncer de próstata” (Publicado em 27/05/2026). Disponível no Portal Médico: https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-aprova-novo-tratamento-para-o-cancer-de-prostata
- Diário Oficial da União (DOU): Resolução CFM nº 2.457/2026 (Regulamenta a indicação, execução e seguimento clínico da Terapia Focal no tratamento do câncer de próstata).
